Nova espécie de borboleta foi descoberta no concelho de Pombal
Escrito por 97fm Rádio Clube de Pombal em 2025-12-09
Foi na berma de um estradão florestal que atravessa a Mata Nacional do Urso, nas imediações da Lagoa de São José, na freguesia do Carriço, concelho de Pombal, que foi descoberta uma nova espécie de borboleta, nunca antes descrita em qualquer parte do mundo. Esta novidade foi divulgada num artigo científico publicado na revista “Nota Lepidopterologica” e é assinado por Martin Corley, Jorge Rosete e Sónia Ferreira. A nova borboleta foi baptizada com o nome Monochroa monellii.
Num comunicado, os investigadores recordam que grande parte da área do Pinhal de Leiria foi severamente afectada pelo incêndio de 15 de outubro de 2017. No entanto, restaram uns quantos hectares densamente florestados “que continuam a albergar um conjunto interessante de fauna e flora”, dizem, explicando que a nova espécie foi detectada através de um método chamado de “armadilhagem luminosa nocturna”. Ao longo de cerca de cinco anos, entre 2020 e 2024, “foram instalados diversos pontos de luz ao longo da área amostrada, os quais permitiram a detecção e captura dos espécimes sujeitos a análise laboratorial no CIBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos”, avançam os investigadores.
A Monochroa monellii, deve o seu nome à planta hospedeira, o morrião-das-areias (Anagallis monelli). “Após insistentes trabalhos de campo foi possível estabelecer uma relação entre este insecto e o morrião-das-areias, uma pequena planta cujas flores são de um azul vívido e que coloniza as zonas arenosas do litoral”, explicam. Ainda que não tenham conseguido encontrar sinais de larvas da borboleta nas folhas dessa planta, “em diversos exemplares recolhidos foi possível observar a presença de pequenos túneis de seda adjacentes à zona do caule, junto à raiz”, dizem. Nesses pequenos túneis encontraram pupas cujos ocupantes, viria a descobrir-se, pertenciam à nova espécie. Além disso, ao combinarem a análise da morfologia com técnicas genéticas, os investigadores aperceberam-se do que descrevem como “o carácter biológico único desta espécie, demarcando-se de outras similares”. Uma vez que a planta hospedeira ocorre noutros locais e não se trata de uma espécie ameaçada, a equipa acredita que será possível que a nova borboleta exista noutros locais ao longo da linha costeira. “Sabe-se, no entanto, que é crescente a pressão que tem vindo a ser exercida sobre o litoral, nomeadamente aquela que decorre de projectos urbanísticos, pelo que no futuro importa cartografar com maior precisão qual é, afinal, a sua distribuição no território e em que estado se encontram as suas populações”, salientam.
A nova borboleta mede entre os 8 e os 10 milímetros e tem um padrão de cores “pouco vistosos”, dizem os seus descobridores, pelo que dificilmente será detectável no seu habitat natural por um olhar destreinado”. Trata-se de uma espécie nocturna, “pelo que durante o dia estará abrigada, quase invisível por causa dos seus tons pardos, sob a vegetação rasteira. Quando perturbada, denuncia a sua localização, mas, por ser tão pequena, com facilidade voltará a desaparecer da nossa vista”, esclarece a equipa.
No comunicado, os investigadores lançam também críticas à forma como a prevenção de incêndios está a ser conduzida no país, em especial no que toca a acções de controlo de potenciais fontes de ignição. “Num afã de reduzir ao máximo a massa arbustiva adjacente aos núcleos florestados por se considerar que ela constitui, por si só, uma fonte facilmente propagadora do fogo, são actualmente conduzidas verdadeiras operações de raspagem do solo que ameaçam a integridade destes microhabitats. Fica assim comprometida a capacidade de regeneração do coberto herbáceo e arbustivo e, por arrasto, a viabilidade das espécies de fauna que aí se alojam como é o caso da Monochroa monellii.” A equipa espera que esta descoberta possa “promover uma reflexão crítica acerca do modo como, neste momento, estão a ser encaradas as áreas ditas ‘incultas’, tantas vezes confinantes com outras de maior estatuto em virtude do seu valor económico”.